quinta-feira, julho 01, 2010

... devorei...

"(..) CARTA DA SENHORA ANA OLÍMPIA, COMERCIANTE EM ANGOLA AO ESCRITOR PORTUGUÊS EÇA DE QUEIROZ

Luanda, Agosto de 1900

(...) duas semanas mais tarde Fradique aparecia para a ceia, acompanhado pelos Arcénio de Carpo, pai e filho: o primeiro discreto, como sempre; o segundo de longo bigode envernizado, vestido espantosamente com umas calças listradas e um casaco justíssimo, que faziam parecer ainda mais magro e mais comprido. Todo ele exalava um estranho odor, doce e quente de tal forma intenso que umas da ninhas molecas fugiu adiante tapando o nariz. «Selvagem!», gritou-lhe o jovem Arcénio «é perfume francês».
Naquele tempo, à noite, Luanda inteira cheirava a jinguba (amendoim), pois era com óleo extraído das sementes desta planta que se iluminavam as ruas. Fradique dizia que as cidades, como as mulheres, se podiam distinguir pelo odor. Os portos da África ocidental francesa, dizia ele, cheiram fortemente a cebola frita em manteiga, mistura que os jovens friccionavam no corpo como se fosse um perfume; o Rio de Janeiro cheira a goiabas maduras, e Lisboa a sardinha, manjerico e deputados. Arcénio de Carpo pai lembrou que no Sul de Angola, entre os cuamatos, as mulheres untam os cabelos com esterco de vaca, e que esse cheiro representa para elas a mais delicada fragrância.
Fradique quis ouvir a minha opinião. Disse-lhe que, tal como os buschmen, eu preferia a todos os perfumes o simples aroma da chuva. Três meses depois recebi em Luanda um frasquinho de cristal, lacrado, contando água. No rótulo, Fradique tinha escrito: «Primeira chuva de Outono em Paris, 20 de Outubro de 1868». Mais tarde enviou-me de uma escalada aos Alpes as sobras de um temporal; e quando em 1871 subiu o Nilo sozinho, até ao país dos núbios, ofereceu-me como recordação algumas gotas de orvalho recolhidas numa manhã macia, em Omdurman. Esta preciosa colecção de chuva, conservada em mais de cinquenta frasquinhos de várias cores e formatos, em cristal e porcelana, inclui ainda um pouco de água benta, caída numa tarde de Abril sobre o Vaticano; a melancólica morrinha de Londres (no dia em que morreu Vitor Hugo); a salsugem de uma tempestade no mar, ao largo de salvador, depois que Fradique, que pela última vez, de despediu de mim.(...)
(...) Fradique olhou-me intensamente: «V. é a prova de que Deus existe», disse, «e de que é completamente louco». Inclinou-se para mim e beijou-me e eu beijei-o a ele. Mais tarde voltámos a ver os mapas, e depois jogámos xadrez. Perguntou-lhe o que é que ele tinha querido dizer quando falara na loucura de Deus. Fradique riu-se: «Só um Deus completamente louco seria capaz de conceber um anjo e depois de o lançar no Inferno». (...)"


José Eduardo Agualusa
in "Nação Crioula"

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