sábado, outubro 09, 2010

... para ler num dia de chuva, quando não apetece sair da cama...

“(…) Só Deus sabe como dói a imaginação. (…) O amor é um grande afastamento, não é? (…) Não há nada mais triste do que ter perdido qualquer coisa e não saber que coisa era. (…) A tua alma não é para tomar conta de ti. Tu é que tens de tomar conta dela. Dar-lhe de comer. Solidão. Consciência. Vagar. Amor. Lembrança. São estes os nossos alimentos.
A tua alma morre de fome e tu queres comê-la. É tua e queres trocá-la.
A tua alma está de visita e tu queres visitá-la. Em vez de lhe dar guarida, tenta invadi-la.
A tua alma não é para ti. Foi-te emprestada. Em vez de agradeceres, tentas gastá-la. Em vez de reviveres através dela, para chegares aos outros que vivem como tu, tentas açambarcá-la.
Se a tua alma te foi dada, foi para tentares dá-la. Não interessa não conseguir. Só querer.
Se dizes «o meu amor», como podes crer seja só teu? Dizes apenas «amor» e procura dá-lo a quem o queira ou quem tu queiras.
As almas não são de ninguém. Esquece a história das casas e dos templos. Não pode haver metáfora para a alma. É a única coisa para a qual não pode haver metáfora. Tens de pensar nela sem pensar em mais nada. Esquece as nuvens e os ventos. Não uses a tua inteligência. Não uses a tua imaginação.
Deixa-te estar. Apodera-te do que puderes. Mas não tentes assenhorar-te do que te leva além da vida. Goza a vida e deixa a alma em paz. A vida é só uma circunstância. É parecida contigo. Mas alma escapa-te, escaparte-á sempre, para que não possas viver simplesmente, para que não tenhas de viver só com a vida, miseravelmente. (…) O passado é só um particípio. Um recurso. Uma espécie de cobardia. (…) As pessoas têm a mania de denegrir o gostar, porque não adivinham a sua raridade. (…) Adiar é a melhor coisa do mundo. Confesso. Sei que soa mal, a pecado imperdoável, mas sim, sou uma procrastinadora. Há tantos dias na vida. Quem sabe se uns são mais apropriados que outros? Eu não. (…) Estrago sempre tudo. Será a minha função nesta vida? Gosto da ideia de que a cada um cabe um certo trabalho nesta vida, mas não acredito nela. Não acredito em nada. Só em mim. É pouco, mas é suficiente.
Talvez devesse regressar a África. Os lugares enganam muito. Durante uns tempos ocupam-nos os sentidos e o pensamento. Forçam-nos a estar atentas. A atenção é uma grande, grande distracção. As diferenças parecem reais. Às vezes até imagino que mudei. (…) É tão feio contentarmo-nos com quem somos.
Se ficássemos sempre pequeninos, sempre invejosos de quem nos rodeia, sempre insatisfeitos, por muito que nos divertamos, o nosso egoísmo seria mais aceitável. «Conhece-te a ti mesmo». Pois sim. Eu conheci-me e só encontrei desejos impossíveis: de não existir, de ser outra pessoa, de merecer as poucas coisas que tenho – até a vida, por muito estranho que pareça. (…)"

Miguel Esteves Cardoso

In “ A VIDA INTEIRA)

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