segunda-feira, novembro 22, 2010

... finalmente li-o...

“(…) Alguma vez na vida alguém lerá – esta lembrança daquela cuja memória nunca morre? (…) Se eu desaparecesse, buscarias o meu nome até ao túmulo? (…) Escreve-me tantas vezes quantas as asas dos gansos que voam para norte, nunca deixes de escrever. (…) O silêncio tem um som incrivelmente alto. (…) Mil fios de cabelo preto, emaranhado – como eles estão nos meus pensamentos, confiados e enredados. (…) a realidade pode ser mais irreal do que qualquer ficção. (…) Por que é que aquela chuva gerava tal melancolia, se no fundo eram boas as memórias que ecoava? Deve ser o recordar que é triste, concluí. A pessoa, a situação, desapareceram. (…) A chuva provocava um tédio tal, que às vezes quase não me apetecia vestir. Havia dias em que ficava no quarto o dia inteiro, embrulhada num velho casaco (…) E havia alturas em que preferia nunca o ter conhecido. (…) O pássaro grita pela fêmea no Lago [Omi]; sendo as coisas como são, também sóis livre de aportar a vários portos. (…) Do ponto de vista masculino, o ciúme é o defeito mais chocante da mulher. Do ponto de vista da mulher, não há nada pior que um homem volúvel. Chegamos à conclusão que é extraordinário que homens e mulheres continuem a relacionar-se. (…) Como a nossa afinidade fora sempre oficialmente ignorada, era difícil falar em separação. (…) «empilha a dor como se fosse lenha». (…) as relações se compõem geralmente de um que está ancorado e de outro que vagueia. (…) Às vezes é preciso uma pessoa de fora para nos mostrar o interesse da coisas que se tornam excessivamente familiares. (…) Na enseada de Isso o grau chora como eu choro; de que terá saudades? (…) Não é coisa rara ser esquecido nos tristes tempos que correm – mais triste é não ter consolo. (…) Deves amar as coisas com toda a tua alma (…) e deixa o resto ao destino. (…) Para nos aproximarmos, temos de ver o coração um do outro; se ao menos eu pudesse provar o meu amor por actos, e não por palavras. (…) Estou certo de que os demónios que não enfrentamos dentro de nós são aqueles que nos causam mais problemas. (…) No fundo, o problema era conciliar a necessidade de constância da mulher com o desejo de novidade do homem. Achava que os homens abominam as mulheres ciumentas e as mulheres receiam os homens inconstantes, mas são justamente as tendências dum género que provocam as do outro. (…) O contentamento tem em si a recompensa; a infelicidade impele-nos a desabafar. (…) Estas coisas não são só uma questão dos nossos sentimentos. Também temos de ser sensíveis ao que os outros pensam . (…) Nada como a Lua para despertar velhas lembranças. (…) Os meus pensamentos estão contigo, querido amigo, embora a duas mil léguas de distância. (…) Durante o breve tempo que contemplo fico bem, embora a cidade onde a Lua regresse fique longe, muito longe. (…) Sem uma palavra, pus os braços à volta dela e abracei-a com força, acompanhando o seu balançar e a sua dor, até que finamente ela parou. Acariciei de mansinho o seu pobre rosto, e ela consentiu. (…) Tempos houve em que a cor da flor de uma só pétala era bem-amada. Terá perdido o brilho? Para mim não. (…) Há momentos em que um poema pode alcançar a imortalidade, mas quase sempre os sentimentos que lutamos por expressar com tanta arte perdem o sentido depois de aquele a quem escrevemos ter partido. (…) Sempre tivera curiosidade em saber por que é que os homens são mais atraídos por mulheres fracas e moldáveis do que pelas talentosas e brilhantes. (…) Alguém deixa de escrever e faz-me sofrer – deixa uma floresta de saudade. (…) O destino não se comove com as nossas tristes esperanças; assim muda e obedece aquilo que esperamos. (…) Haverá algum destino que possa satisfazer-me? Aquilo que espero nem eu sei imaginar. (…) Os dias arrastam-se cheios de tédios enquanto a chuva cai, e os meus pensamentos estão enleados em melancolia como os ramos do salgueiro que chora. (…) Descobri que a solidão era muito mais fácil de suportar quando era partilhada. (…) Procuro o meu reflexo mas só vejo as minhas lágrimas melancólicas no regato, e o som da bela cascata. (…) Por que é que eu não podia aceitar as coisas simplesmente como eram e sentir-me grata? Não sabia. Como invejava as pessoas de desejos simples, que encontram motivo de alegria na vida tal como ela é! (…) Olho os céus baixos escurecidos por nuvens sem fim e o meu coração também se tolda e chove lágrimas de saudade. (…) Toda a gente reage de maneira diferente. Alguns nascem alegres, abertos e sinceros. Outros são pessimistas, nada os distrai, transformam velhas cartas em sutras, cumprem penitências e estão sempre a bater nas contas e a rezar – tudo isso me fazia arrepiar. Desejava desesperadamente ser mais generosa. Todos os dias tinha de me esforçar para não me transformar numa rabugenta presumida. (…) uma coisa depois de escrita ganha vida própria e segue o seu destino. (…) Vivo cada dia no ardor da tua falta, e agora cai a primeira neve – que derrete quando toca na minha saudade. (…) era como um barco à deriva, sacudida tanto pelas suas próprias paixões em conflito, como pelos caprichos dos seus amantes. (…) Que caminho devo seguir? Onde devo colocar-me? Sem saber a resposta, vou pesadamente existindo. (…) Num mundo sem norte, com excepção dos poemas, todas as palavras são forçadas. (…) Sendo o papel tão frágil, parece ser a única coisa que fica, depois de tudo. (…) O mais estranho é descobrir, depois de tudo isto, que ainda tenho papel – mas acho que já escrevi o suficiente. (…)”

Lisa Dalby
In “A História de Murasaki”

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