sábado, março 22, 2014

... mia...

... "(...) Até que os leões inventem as suas próprias histórias, os caçadores serão sempre os heróis das narrativas de caça. Provérbio africano (...) Só há um modo de escapar de um lugar: é sairmos de nós. Só há um modo de sairmos de nós: é amar-mos alguém. Excerto roubado as cadernos do escritor (...) Preciso tanto de dormir! Não é descanso que procuro. Quero sim, ausentar-me de mim. Dormir para não existir. (...) Nem precisamos de inimigos. Sempre nos bastámos a nós mesmos para nos derrotarmos. (...) tristeza não é chorar. Tristeza é não ter para quem chorar. (...) Todas as manhãs a gazela acorda sabendo que tem de correr mais veloz que o leão ou será morta. Todas as manhãs o leão acorda sabendo que deve correr mais rápido que a gazela ou morrerá de fome. Não importa se és um leão ou uma gazela: quando o Sol desponta o melhor é começares a correr. Provérbio africano (...) foram os animais que começaram a fazer-me humana. (...) Num mundo de homens e caçadores, a palavra foi a minha primeira arma. (...) Tem medo de si mesmo. Tem medo de ser caçado pelo animal que mora dentro de si. (...) Uma palavra que não pode sair da boca acaba convertendo-se em baba peçonhenta. Provérbio africano (...) As pernas nascem na cabeça, todo o corpo começa na cabeça tal como os rios descem do céu. (...) Todos nós, já antes, estivemos afogados antes de nascermos. A luz que nos recebeu no parto foi a primeira praia onde desembocámos. (...) Um exército de ovelhas liderado por leão é capaz de derrotar um exército de leões liderado por uma ovelha. Provérbio africano (...) Pode-se chamar de criança a uma criatura que lavra a terra, corta a lenha, carrega água e, no fim do dia, já não tem alma para brincar? (...) Toda a família se extasiou perante a vastidão do oceano, o infinito vivo, esse horizonte sem contorno que parecia nascer dentro de nós. As minhas irmãs, paralisadas pelo espanto, perderam, o verbo, embriagadas perante aquela imensidão. Fui a única que caminhou em direcção à rebentação. O que me fascinou não foi aquela ausência de limites. O que me encantou foi a espuma, os farrapos de espuma que se soltavam da crista das ondas. Como aves brancas sem corpo e sem asas, esses fiapos se soltavam num voo cego para se dissolverem no ar. Nos meus lábios enrolei e soltei mil vezes a palavra «espuma». Se um dia tivesse uma filha chamar-lhe-ia assim: Espuma. (...) as dores passam, mas não desaparecem. Elas migram para dentro de nós, alojam-se algures no nosso ser, submersas num fundo de lago. (...) Quando chorava era uma maré enchente. Cada lágrima era um ovo de água que tombava, com estrondo, no soalho. (...) para todos os outros ela não carecia de nome algum. Era apenas uma esposa, uma esposa particular. Ela era a primeira-dama de uma aldeia sem damas. (...) De ossos e Sol, não de vida, se faz o Tempo. Porque a Vida é feita contra o Tempo. Sem medida, tecida de ínfimos infinitos. Extrato roubado aos cadernos do escritor (...) Confesso agora o que devia ter anunciado logo de início: eu nunca nasci. Ou melhor: nasci morta. Ainda hoje a minha mãe aguarda pelo meu choro natal. Só as mulheres sabem quanto se morre e nasce no momento do parto. Porque não são dois corpos que se separam: é o dilacerar de um único corpo, de um corpo que queria guardar duas vidas. Não é a dor física que , naquele momento, mais aflige a mulher. É uma outra dor. É uma parte de si que se desprende, o rasgar de uma estrada que, aos poucos, nos devora os filhos, um por um. (...) Aos poucos Hanifa Assulua me abandonou, sem culpa, sem palavra de conforto. Como se ela tivesse entendido que apenas acidentalmente eu tinha ocupado o seu ventre e morado na sua vida. (...) Foi a vida que lhe roubou a humanidade: tanto a trataram como um bicho que você se pensou animal. (...) a bem ver, nunca cheguei a matar ninguém. Todas essas mulheres já estavam mortas. Não falavam, não pensavam, não amavam, não sonhavam. De que valia viverem se não podiam ser felizes? (...)"... 

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