sexta-feira, setembro 19, 2014

... de volta à avenida...

... nunca gostei de estudar. Para quem me conhece, isto pode parecer mentira, mas é a mais pura verdade. Nunca gostei de estudar, sempre fui daquelas alunas que se dedicava o minímo apenas para passar. Cedo perdi o interesse e passei a ver a escola como uma terrível obrigação. Os meus anos de ouro foram na primária. Era uma aluna exemplar, sempre sentada na primeira fila, venerava a professora Maria Casimiro e chorava desesperada quando ela faltava às aulas com pavor que algo lhe tivesse acontecido. Foram os melhores quatro anos da minha vida. No primeiro ano, a minha mãe levava-me à escola e sempre que podíamos iamos a pé. Na altura não havia tantos prédios como agora e adorava cortar caminho por entre o pinhal. Lembro-me bem do cheiro dos eucaliptos nas frias manhãs. No segundo ano já ia sozinha, mas de autocarro para não correr o risco de me perder, ou então ia de boleia com a Tia Ruka e a Rosarinho que era a minha melhor amiga e parceira de carteira. Eram as viagens mais divertidas do mundo, sempre a cantar e a inventar jogos. E a cereja no topo do bolo era quando depois da escola ia brincar para casa dela com o Rudy, um boxer gigante que me dava banhos de língua. A escola primária era o meu mundo, onde nenhum adulto podia entrar. Na sala de aula tinha a professora mais querida, apesar de muito rigorosa e disciplinada, que nos oferecia blocos de cheiro e borrachas pelos nossos feitos e no recreio tinha a Joaquina, a auxiliar que tomava conta de nós e nos ajudava a subir às árvores e nos pegava ao colo e tratava das feridas quando caíamos...
... a Professora Maria Casimiro e eu com oito anos...
... chorei muito quando tive de mudar de escola e fiquei em pânico com o seu tamanho gigante e a quantidade de miúdos grandes. E o pior, tinha não sei quantos professores. Já não tinha a minha Maria Casimiro, tinha tantos tantos que nem me lembro ao certo. E eram todos velhos e estranhos e faziam um frete imenso para nos dar aulas e aturar as más criações dos repetentes. A escola passou a ser um suplício. As únicas memórias que tenho são da profesora de português do quinto ano que nos lia a Menina do Mar, da Sophia de Mello Breyner quando nos portávamos bem e a professoa de alemão do décimo ano que nos trazia bolas de berlim com doce de morango no Carnaval. Assim se passaram os anos, as escolas, os professores. Entrei na faculdade, escolhi o curso de Relações públicas e Publicidade, porque não sabia muito bem o que fazer e como ficava fixada na televisão durante os intervalos e forrava as capas dos cadernos com imagens de anúncios da Benetton e da Tag Heure achei uma boa ideia. Not. Entrei na faculdade sem paixão nem curiosidade e logo me aborreci com a quantidade de teoria - sempre imaginei que o curso fosse muito mais prático. A viagem de Cascais para Lisboa era cada vez mais longa, as horas nas aulas cada vez mais entediantes, pensei em desisitir, mas não o fiz. E ali estive quatro anos puramente aborrecida. Quando acabei o curso foi uma festa e nem quis pensar em pós-graduações. Não queria estudar mais. A minha obrigação estava cumprida. Se era um curso de faculdade que a minha mãe queria, ali estava ele. Fui trabalhar fora da minha suposta área e fiz de tudo um pouco até que cheguei aos trinta e quatro anos frustrada e sem foco. E já rebentar pelas costuras de tanta coisa vazia, despedi-me. Estive três meses de "férias" e agora, dez anos depois de acabar a faculdade, voltei à Avenida Duque de Loulé para estudar. É estranho sair da porta da Palavras Ditas e olhar para o outro lado da rua e ver o antigo edíficio da minha faculdade. Não me trás as melhores recordações. Mas desta vez tenho em mim a curiosidade e a vontade que não tinha há dez anos, que não tinha há vinte...

1 comentário:

**mf** disse...

Que tempos bonitos Ana! E aos 34 é uma boa altura como qualquer outra para recomeçar e nos redefinirmos. Força! :)